Numa das casas apalaçadas mais antigas de Ponte de Lima, propriedade da mesma família há mais de duzentos anos, encontra-se um espelho de moldura dourada trazido de Itália no início do século XIX, associado por várias gerações da família a uma reputação persistente de má sorte, ao ponto de ter sido guardado coberto por um pano numa divisão fechada durante décadas, só voltando a ser exposto ocasionalmente por curiosidade de visitantes.
Segundo a tradição familiar, transmitida oralmente entre gerações, o espelho terá sido adquirido por um antepassado que, pouco depois de o trazer para casa, terá sofrido uma sucessão pouco habitual de desgraças: a morte súbita de dois filhos pequenos num curto espaço de tempo, seguida da ruína financeira de um negócio até então próspero. A família da época atribuiu esta sequência de infortúnios ao espelho, decidindo cobri-lo permanentemente, uma prática que se manteve, com poucas exceções, até aos dias de hoje.
Membros mais recentes da família relatam episódios pontuais associados especificamente aos períodos em que o espelho esteve descoberto: uma bisneta do proprietário original relata ter visto, ainda criança, na década de 1970, um reflexo que não correspondia à sua própria imagem durante alguns segundos, um episódio que a levou a recusar-se a entrar novamente naquela divisão da casa até à idade adulta. Mais recentemente, em 2019, durante uma sessão fotográfica para um artigo sobre património familiar do Minho, o espelho foi coberto novamente por insistência da atual proprietária, que preferiu não correr riscos apesar de reconhecer publicamente algum ceticismo pessoal quanto à lenda.
Objetos com reputação de "amaldiçoados" transmitida através de tragédias familiares reais, ainda que provavelmente coincidentes, são um fenómeno bem documentado na tradição popular europeia, e psicólogos que estudam superstição apontam o chamado "viés de confirmação" como mecanismo relevante: uma vez estabelecida a crença de que o objeto traz má sorte, qualquer desgraça posterior ocorrida na sua presença tende a ser interpretada como confirmação, enquanto longos períodos sem incidentes são simplesmente esquecidos ou não associados ao objeto.
A família mantém, ainda assim, a prática de manter o espelho coberto na maior parte do tempo, menos por convicção ativa na maldição e mais, segundo a atual proprietária, "por respeito à memória e ao medo dos antepassados que decidiram cobri-lo em primeiro lugar".
CASO Nº0047
Lenda Local
O Espelho da Casa Grande de Ponte de Lima
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