A Lagoa das Sete Cidades, na ilha de São Miguel, é um dos cenários mais fotografados dos Açores — duas lagoas de cores distintas, azul e verde, encaixadas na cratera de um vulcão extinto, envoltas numa lenda de amor impossível entre uma princesa e um pastor que deu origem, segundo a tradição popular açoriana, às suas águas de cores diferentes, formadas pelas lágrimas dos dois amantes separados para sempre.
Menos conhecida fora da ilha é a lenda paralela de uma criatura aquática que alguns pescadores e habitantes locais dizem habitar as profundezas da lagoa verde, descrita de forma consistente ao longo de várias gerações como um animal de grande porte, com características entre serpente e enguia gigante, avistado ocasionalmente a perturbar a superfície da água em dias de calmaria total, quando a ausência de vento torna qualquer movimento na lagoa particularmente visível a partir das margens.
Em 2017, um grupo de turistas que realizava um passeio de caiaque na lagoa relatou ter sentido uma perturbação súbita e forte na água por baixo da embarcação, suficiente para desequilibrar temporariamente os caiaques, sem que fosse visível qualquer causa aparente à superfície — um episódio que, apesar de gerar alguma cobertura nos meios de comunicação regionais açorianos, nunca foi investigado de forma sistemática pelas autoridades locais, que atribuíram o incidente a possíveis correntes subaquáticas relacionadas com a atividade geotérmica residual da cratera vulcânica.
Lendas de criaturas aquáticas em lagos vulcânicos ou de origem glaciar são um fenómeno relativamente comum a nível mundial, do lago Ness na Escócia ao lago Champlain na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá, e investigadores de folclore comparado apontam que estas lendas partilham frequentemente características semelhantes: águas profundas de origem geológica particular, visibilidade reduzida que dificulta a confirmação visual definitiva, e uma combinação de tradição oral antiga com avistamentos modernos esporádicos que mantêm viva a lenda ao longo de gerações sucessivas. A Lagoa das Sete Cidades, pela sua origem vulcânica e profundidade considerável para uma lagoa de água doce insular, encaixa-se neste padrão internacional de forma particularmente consistente.
Biólogos que estudam o ecossistema da lagoa apontam que a profundidade máxima registada, de cerca de trinta e três metros, aliada à origem vulcânica do local, poderia teoricamente sustentar populações de enguias-europeias de dimensões consideravelmente superiores à média, devido à ausência histórica de predadores naturais e à relativa estabilidade do ecossistema fechado — uma explicação biológica plausível que, ainda assim, não convence por completo os defensores da lenda, que continuam a considerar os avistamentos mais recentes compatíveis com descrições muito mais antigas da criatura, anteriores a qualquer conhecimento científico sobre a fauna presente na lagoa.
CASO Nº0028
Lenda Local
A Criatura da Lagoa das Sete Cidades
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