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CASO Nº0026 Lenda Local

As Feiticeiras do Barroso

A região do Barroso, no planalto montanhoso do concelho de Montalegre, distrito de Vila Real, é reconhecida pela UNESCO como Património Agrícola Mundial pelo seu sistema tradicional de agricultura comunitária — mas é também, há séculos, uma das regiões portuguesas mais associadas a práticas de bruxaria popular, um legado que os próprios habitantes locais tratam hoje com uma mistura de orgulho cultural e discrição.

A tradição barrosã distingue claramente entre a "bruxa má", figura temida associada a maleficios e má sorte, e a "curandeira" ou "saludadora", figura respeitada capaz de curar através de rituais específicos, orações e ervas locais. Esta distinção, documentada por etnógrafos portugueses desde o início do século XX, reflete uma estrutura social complexa em que as comunidades rurais isoladas do Barroso desenvolveram sistemas próprios de saúde e proteção espiritual, adaptados à falta histórica de acesso a cuidados médicos convencionais numa região de altitude elevada e invernos rigorosos.

Um dos rituais mais documentados da tradição barrosã é a chamada "queima do inverno", realizada tradicionalmente no primeiro dia do ano em várias aldeias da região, na qual figuras vestidas com trajes específicos, os "caretos", percorrem as ruas em rituais que antropólogos associam a práticas pré-cristãs de purificação e afastamento de más energias associadas ao ano que termina — uma tradição que sobrevive hoje sobretudo através dos famosos caretos de Podence, na vizinha Trás-os-Montes, mas que tem variantes menos conhecidas espalhadas por várias aldeias do Barroso.

O reconhecimento do sistema agro-silvo-pastoril do Barroso como Património Agrícola Mundial pela FAO, atribuído em 2018, trouxe uma atenção renovada à região, incluindo aos aspetos culturais e espirituais que sempre acompanharam o seu modo de vida comunitário, assente em terrenos baldios geridos coletivamente pelas aldeias há séculos. Investigadores que acompanharam o processo de candidatura notaram que esta gestão comunitária da terra, rara na Europa contemporânea, está historicamente interligada com a manutenção de tradições espirituais igualmente comunitárias, incluindo a figura da curandeira, que servia tradicionalmente toda a aldeia e não apenas famílias individuais, reforçando o tecido social em torno de práticas que hoje seriam classificadas como bruxaria popular.

Moradores mais antigos da região continuam a referir, com naturalidade, a existência de mulheres na sua comunidade a quem se atribui a capacidade de "quebrar quebrantos" — um mal supersticioso tradicionalmente associado a inveja ou mau-olhado, curado através de rituais específicos que envolvem geralmente água benta, orações particulares e a repetição de determinadas fórmulas transmitidas apenas de forma oral, nunca escrita, entre gerações de curandeiras. Esta tradição, ainda praticada discretamente nalgumas aldeias mais isoladas do planalto barrosão, é hoje estudada por investigadores universitários como um dos últimos exemplos vivos de medicina popular portuguesa a resistir à passagem do tempo.
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