Quando tinha três anos, a filha de Marta e Rui, um casal de Setúbal, começou a falar espontaneamente sobre "quando era grande", descrevendo com detalhe uma casa diferente da sua, um marido chamado Alberto e a morte num acidente de automóvel numa estrada que descrevia com precisão suficiente para os pais a identificarem como a antiga Estrada Nacional 10, num troço que foi desativado nos anos 90 depois da construção de uma variante.
Inicialmente, os pais trataram estas afirmações como fantasia infantil comum, até a menina começar a mencionar detalhes cada vez mais específicos: o nome de uma rua onde dizia ter vivido, a existência de um cão específico, e uma frase repetida sobre "os frascos na prateleira da farmácia", que os pais não conseguiam associar a nada da vida familiar. Movidos pela curiosidade e por conselho de um psicólogo infantil que acompanhava a menina por outras razões, decidiram investigar informalmente a informação.
Através de registos históricos e conversas com moradores mais antigos da zona indicada, a família conseguiu confirmar a existência de uma farmácia na rua mencionada pela criança, entretanto encerrada, e apurou que o proprietário, falecido nos anos 80, se chamava efetivamente Alberto e que a sua esposa tinha morrido num acidente de viação numa data compatível com o desativamento do troço da EN10 mencionado pela menina — informação que nenhum dos pais conhecia previamente e que não estava disponível através de pesquisa simples online.
Ian Stevenson, psiquiatra da Universidade da Virgínia falecido em 2007, desenvolveu ao longo de mais de quarenta anos de carreira uma metodologia rigorosa para documentar aquilo a que chamou "casos do tipo reencarnação", exigindo sempre o registo escrito das afirmações da criança antes de qualquer tentativa de verificação, precisamente para evitar contaminação da memória dos pais ou da própria criança com informação obtida a posteriori. Este cuidado metodológico é considerado, mesmo por críticos do campo, um padrão relativamente elevado dentro da investigação de fenómenos paranormais, distinguindo estes casos de relatos anedóticos sem qualquer registo prévio à verificação.
Casos deste género são estudados há décadas por investigadores como o próprio Stevenson, que documentou milhares de relatos semelhantes em crianças de várias culturas, com um padrão recorrente: as memórias surgem tipicamente entre os dois e os cinco anos, tornam-se cada vez mais detalhadas durante um curto período, e desvanecem-se quase por completo por volta dos sete ou oito anos de idade, à medida que a criança desenvolve uma identidade mais consolidada. A filha de Marta e Rui, hoje com doze anos, já não recorda nenhum destes episódios nem consegue confirmar ou negar qualquer detalhe do que disse quando era mais nova, restando à família apenas os registos escritos que fizeram na altura e a confirmação parcial que conseguiram obter junto de moradores da zona.
CASO Nº0024
Confirmado
Memórias de Outra Vida: o Caso de uma Criança em Setúbal
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