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CASO Nº0022 Não Resolvido

A Casa da Avó, em Chaves

Cresci a passar todos os verões na casa da minha avó, em Chaves, uma casa de granito com mais de cem anos que passou de geração em geração na família do meu avô. Desde muito nova que sabia que não devia perguntar sobre o quarto do fundo do corredor — a minha avó fechava sempre a porta à chave e mudava de assunto sempre que alguém tocava no tema, mesmo os meus tios, que também tinham crescido naquela casa.

Só depois de a minha avó falecer, em 2019, é que a família finalmente abriu aquele quarto, e soubemos a história: tinha pertencido a um tio-avô que morrera muito novo, ainda criança, numa altura em que a família não tinha meios para o tratar devidamente. A minha avó nunca conseguiu ultrapassar essa perda e manteve o quarto praticamente intocado durante décadas, como uma espécie de santuário silencioso que ninguém mais podia visitar.

Nos meses seguintes à sua morte, enquanto a família tratava do espólio da casa, vários primos começaram a relatar, de forma independente e sem terem falado uns com os outros sobre o assunto, ouvir passos leves de criança no piso de cima durante a noite, mesmo com a casa vazia. Eu própria, numa das noites em que fiquei sozinha a tratar de papéis antigos, ouvi claramente o som de um objeto pequeno a rolar pelo chão do quarto do fundo, como uma bola ou um brinquedo, apesar de o quarto estar completamente vazio depois de termos retirado tudo o que lá estava.

Na cultura popular transmontana, é comum a crença de que uma dor não resolvida, sobretudo a perda de uma criança, pode "ficar presa" numa casa através dos objetos e espaços que a família se recusa a alterar, uma ideia que várias curandeiras da região tradicionalmente associam à necessidade de "libertar" esses espaços através de rituais simples, como abrir portas e janelas em dias específicos do ano ou rezar terços dedicados especificamente às almas da família. A minha tia mais velha, que ainda vive perto de Chaves, sugeriu-nos precisamente isto quando lhe contámos o que se estava a passar, e foi essa mesma tia que insistiu para abrirmos o quarto e deixarmos de o tratar como um espaço interdito.

A minha família é dividida quanto à interpretação destes episódios: uns acreditam que se trata efetivamente da presença do meu tio-avô, de alguma forma ligado à casa onde nunca teve oportunidade de crescer; outros preferem explicações mais práticas, como o assentamento natural de uma estrutura antiga de granito, que produz ruídos frequentes com as variações de temperatura típicas do interior transmontano. A casa continua na família, agora ocupada por um dos meus tios, que optou por deixar o quarto do fundo aberto e arejado, ao contrário da avó — e garante que, desde essa mudança, os ruídos praticamente deixaram de se ouvir.
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