Início Pesquisa Favoritos Entrar
← Bruxaria
CASO Nº0015 Lenda Local

As Bruxas de Monsanto: Rituais que Sobrevivem ao Tempo

Monsanto, a aldeia histórica encostada aos enormes penedos de granito no concelho de Idanha-a-Nova, foi eleita em 1938 "a aldeia mais portuguesa de Portugal" — mas é também, há séculos, associada a uma tradição de bruxaria popular que sobrevive, de forma discreta, até aos dias de hoje. A proximidade entre as casas de xisto e os penedos gigantescos que parecem esmagar a povoação criou, segundo etnógrafos que estudaram a região, um imaginário particularmente fértil para práticas de curandeirismo e feitiçaria popular, transmitidas oralmente de geração em geração.

A figura central desta tradição é a chamada "bruxa da serra", uma curandeira que, segundo relatos recolhidos por investigadores de cultura popular ao longo do século XX, viveria isolada entre os penedos mais altos da aldeia e a quem os habitantes recorriam em segredo para resolver problemas que a medicina convencional da época não conseguia tratar — desde doenças de gado a quebra-mau-olhados, passando por feitiços de amor conhecidos localmente como "amarrações". A prática mais associada a esta tradição é a recolha de ervas específicas em noites de lua cheia, seguida de rituais realizados junto às fragas mais isoladas da aldeia, longe da vista dos vizinhos mais devotos.

Um dos rituais mais persistentes na memória coletiva de Monsanto é o chamado "lançar das cascas de ovo", realizado tradicionalmente na noite de São João: as cascas de ovo eram deixadas de um dia para o outro num copo com água, e a forma que tomavam pela manhã, supostamente moldada por forças sobrenaturais, era interpretada como uma previsão sobre o futuro de quem realizava o ritual — casamento, viagem, doença ou morte, consoante a forma observada.

Antropólogos que estudaram a região nas últimas décadas apontam que estas práticas, longe de desaparecerem com a modernização, se mantiveram vivas precisamente pelo isolamento geográfico de Monsanto, que durante muito tempo dificultou o acesso a cuidados médicos convencionais e reforçou a dependência das comunidades locais em curandeiras e práticas populares transmitidas por tradição oral. Hoje em dia, alguns destes rituais são recriados de forma turística durante festividades da aldeia, ainda que os habitantes mais antigos insistam que as versões originais, praticadas em segredo, nunca desapareceram por completo.

Entre as ervas mais associadas à tradição da bruxa da serra estão a arruda, tradicionalmente usada em Portugal para afastar o mau-olhado, e o rosmaninho, colhido nas encostas rochosas de Monsanto e queimado em pequenas fogueiras como forma de purificação de casas e estábulos. Esta combinação de plantas locais com rituais de purificação aproxima a tradição de Monsanto de práticas semelhantes documentadas noutras regiões rurais do país, ainda que os investigadores de etnografia sublinhem que cada região desenvolveu variações próprias consoante a flora disponível localmente e as necessidades específicas das comunidades agrícolas que praticavam estes rituais.

A associação de Monsanto à bruxaria popular portuguesa é hoje reconhecida por investigadores de etnografia como um dos exemplos mais bem preservados deste tipo de tradição no país, situando a aldeia lado a lado com outras regiões historicamente associadas a práticas semelhantes, como o Barroso ou partes do interior transmontano. Fica, para quem visita os penedos de Monsanto, o convite a imaginar as noites de lua cheia em que, há séculos, entre aquelas mesmas pedras, se acendiam fogueiras e se sussurravam palavras que a aldeia nunca esqueceu por completo.
Marcar como útil · 0
Guardar

0 respostas

Ainda ninguém respondeu. Sê a primeira pessoa a comentar.