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CASO Nº0011 Não Resolvido

Quarto 237, Pensão da Rua da Prata

Trabalhei como rececionista na antiga Pensão Aliança, na Rua da Prata, durante quase três anos, entre 2014 e 2017. O prédio já tinha mais de cem anos quando comecei lá, e a administração falava abertamente do quarto 237 como "o quarto problemático" — não porque tivesse infiltrações ou canalização velha, mas porque praticamente nenhum hóspede lá dormia a noite toda sem se queixar de algo.

Nos primeiros meses, tratei as reclamações como normais: ruídos de casas antigas, madeira que estala com a mudança de temperatura, canalização de outros quartos. Mas o padrão repetia-se com uma regularidade que comecei a anotar. Hóspedes descreviam sempre a mesma sequência: acordavam a meio da noite com a sensação de que havia alguém sentado na ponta da cama, sentiam o colchão afundar ligeiramente do lado dos pés, e quando acendiam a luz não havia ninguém. Alguns relatavam ainda um cheiro intenso a lavanda antiga, misturado com qualquer coisa a queimado, que desaparecia poucos minutos depois de a luz ser acesa.

Perguntei aos donos da pensão, um casal que geria o negócio há três gerações, se sabiam de alguma história ligada ao quarto. Só depois de insistir é que a proprietária, já com mais de setenta anos, me contou que o edifício tinha funcionado como enfermaria improvisada durante a epidemia de gripe pneumónica de 1918, e que o quarto 237 corresponderia, segundo plantas antigas da família, à antiga sala onde eram deixados os doentes em estado mais grave, à espera de morrer, por não haver mais nada a fazer por eles.

Depois de saber isto, comecei a prestar mais atenção. Numa noite de inverno, com a pensão praticamente vazia, decidi eu própria passar algum tempo no quarto depois do meu turno, já perto da meia-noite. Sentei-me na cadeira junto à janela com o telemóvel a gravar áudio, sem grandes expectativas. Por volta da uma da manhã, a temperatura da divisão pareceu descer de forma perceptível — o suficiente para eu notar o frio nos braços apesar do aquecimento estar ligado. Poucos segundos depois, ouvi claramente o som de uma respiração pesada e irregular, como a de alguém com dificuldade em respirar, vindo de um ponto próximo da cama. Não havia ninguém no quarto além de mim.

Levei a gravação para um grupo de investigação paranormal com quem tinha contacto através de um fórum online. Depois de limpar o ruído de fundo, confirmaram que o som correspondia efetivamente a uma respiração humana irregular, sem conseguirem explicar a origem. Nunca mais voltei a passar a noite sozinha naquele quarto, mas continuei a registar as queixas dos hóspedes até deixar o emprego, em 2017.

A epidemia de gripe pneumónica de 1918, popularmente conhecida em Portugal como "pneumónica", terá vitimado, segundo estimativas históricas, mais de cem mil pessoas em todo o país, com Lisboa entre as cidades mais afetadas devido à densidade populacional da Baixa. Hospitais e enfermarias improvisadas espalharam-se por edifícios civis nunca preparados para funções clínicas, muitos dos quais, como a futura Pensão Aliança, regressaram décadas mais tarde à sua função original de alojamento sem que qualquer registo formal identificasse os doentes que ali passaram os últimos dias de vida. Esta ausência de registo nominal é, segundo investigadores de história local, um padrão comum a vários edifícios lisboetas com histórico semelhante, dificultando qualquer tentativa de identificar, pelo nome, quem poderá estar na origem de fenómenos como os relatados no quarto 237.

Há quem aponte explicações mais terrenas para o fenómeno — problemas de isolamento acústico entre quartos, efeitos da imaginação amplificados pelo conhecimento da história do edifício, ou mesmo infrassons produzidos pelo tráfego noturno da Baixa lisboeta, que alguns investigadores já associaram a sensações de presença em ambientes fechados. Nenhuma destas hipóteses foi, no entanto, testada de forma sistemática no local, e o caso permanece por esclarecer. A pensão fechou portas em 2019 e o edifício está atualmente devoluto, à espera de obras de reabilitação — resta saber o que vai acontecer ao quarto 237 quando essas obras finalmente começarem.
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